Uma crença muito comum é a de que dor nas costas (ou em outra estrutura) é causada por posturas avaliadas como incorretas. Na verdade, esse tipo de relação tem um fraco suporte científico quando pensamos na ideia de se manter em uma postura ideal para prevenir dores.
Existem diferentes motivos que influenciam na disseminação sem reflexão acerca desse assunto, um deles, sem dúvidas, é a grande indústria que se instalou ao entorno do tema, com diversas intervenções de poucas/fracas evidências científicas e profissionais que ainda acreditam e provém este tipo de informação.
Se tornando um sistema retroalimentado ao qual se instaura uma condição para a dor que inexiste e prega-se tratamentos não baseados em evidências, nesse caso as dores e causas do problema nunca são detectadas e avaliadas de forma devida, fazendo com que a pessoa refaça todo o trajeto entre as áreas da saúde e seus tratamentos, que mais uma vez não terá efetividade para entender e atuar perante a sua dor, seja crônica ou aguda.
Outra grande polêmica acerca do assunto é sobre os músculos do CORE (músculos do tronco, quadril e pelve). A indicação é mantê-los conscientemente ativos para atingir uma postura correta e proteger a coluna. No entanto, essa ativação de forma consciente se faz muito necessária em um ambiente de treino, dadas as posturas e ativações musculares exigidas especificamente para cada técnica, modalidade e movimento realizado, mas que não se traduz, obrigatoriamente, para fora desse ambiente, no caso, as atividades de rotina.
Determinadas posições “desajeitadas” associadas ao levantamento de altas cargas realmente podem(poder não quer dizer que irá) precipitar episódios de dores lombares agudas ou lesões, no entanto não há fortes evidências entre uma “postura correta” e prevenção de dores ou que as curvaturas da coluna estejam associadas a prevenção ou redução de dor e incapacidade.
Na verdade, pessoas com dores lombares tendem a “dobrar” (flexionar) menos a coluna e apresentam maior atividade nos músculos do tronco ao inclinar para frente ou realizar exercícios. Isso se deve a crença de que a pessoa com dor deve ser cuidadosa e proteger a estrutura que dói, sendo uma questão ainda mais complexa e limitante ao indivíduo quando há associação entre medo e baixo nível de auto eficácia com movimentos protetivos, devido a gerar cada vez mais estresse físico e psicológico. Essa conduta de hiper solicitação muscular pode gerar dor e desconforto devido a sobrecarga nos músculos, por gerar grande trabalho e fadiga.
Quando o profissional da saúde trabalha com casos de dor é importante observar além dela, como: posturas excessivamente protetoras, tensão muscular, apreensão, vigilância exagerada, sofrimento, humor e imagem corporal.
Estes aspectos nos dão informações sobre reações comportamentais e como é a reação e entendimento da experiência da dor do indivíduo, sendo importante entender o motivo dele adotar determinadas posturas e comportamentos, permitindo atuar com mais efetividade de acordo com cada caso e suas necessidades.
É importante frisar que o profissional da saúde que atua com uma pessoa a qual traz sua experiência de dor deve ser cauteloso nas palavras usadas, expressões como: “sente-se reto”, “ficar sentado é ruim para você”, “essa dor é motivo da sua má postura” e entre outras afirmações extremas e agressivas, pois estas podem aumentar os níveis de vigilância e levar ao medo, o que pode tornar a experiência de dor pior e mais frustrante e influenciar negativamente o processo de melhora.
Ajudar as pessoas a adotarem posturas mais relaxadas ao mesmo tempo que lhes dá a segurança de que estas posturas não irão resultar em aumento ou manutenção das dores pode prover alívio nos sintomas.
O profissional deve auxiliar em como a pessoa irá se expor a posturas e movimentos que antes eram evitados e encorajar uma mudança de hábitos que são provocativos à dor. Posturas confortáveis variam de um indivíduo para o outro, por isso é interessante explorar diferentes possibilidades.
Outro mito a ser quebrado é o do repouso, muito recomendado por anos a pessoas com dores lombares e diversas outras, mas deixou de ser uma recomendação apropriada, abrindo espaço para condutas mais modernas e baseadas em novas evidências sobre o assunto.
Atualmente dor se trata com enfrentamento, analisando e atuando perante a situação, sendo o indivíduo com dor o ator principal e mais ativo no processo.
Ainda há muitos desafios na reformulação da ideia de uma postura “correta” ou “ideal”, apesar de a ciência não embasar uma postura comum e crenças sobre o CORE difundidas por profissionais da saúde, manuais de instrução, livros, mídia e pela sociedade em geral. Uma certa resistência acerca do assunto é encontrada em meios profissionais, quando tentamos quebrar paradigmas por meio de informação e educação de novos conceitos, devido a um modelo de negócio já instalado que se retroalimenta dessa condição.
Referência: “Sit Up Straight”: Time to Re-evaluate. J Orthop Sports Phys Ther 2019;49(8):562-564. doi:10.2519/jospt.2019.0610